02/10/2015

PERDIDOS NO TEMPO


«Talvez nascer e morrer não sejam apenas o começo e o fim do nosso destino mas uma componente que se repete incessantemente ao longo de toda a nossa existência. Em cada trajectória vital a morte da criança dá passagem ao jovem, a perda de um amor ou o acabar de uma tarefa projectam-nos para outros empreendimentos, o que se vai é condição do que vem, não nos poderíamos abrir ao inédito - quer seja terrível ou alegre - se não fôssemos despojados do antigo. O futuro atira-se para nós trazendo o nosso fim mas também é a província desconhecida em que estamos sempre a entrar como exploradores forçados para descobrir armadilhas e tesouros. Recorramos novamente à opinião de um poeta, esses grandes orientadores do pensamento. Diz William Buther Yeats que "o homem vive e morre muitas vezes entre as suas duas eternidades". Essa alternância de vida e morte é exactamente aquilo a que, sem renunciar à nossa liberdade, podemos chamar "destino humano" face à eternidade que nos exclui.»

Fernando Savater
  In: As Perguntas da Vida;
Publicações Dom Quixote, pp. 257-258.

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